domingo, 26 de julho de 2015

Plot Twist: Enganar e Cativar

 Eu sou seu pai.

O texto contém grandes spoilers. No entanto, eles estão marcados em branco. Para lê-los, basta selecioná-los com o mouse. Só sugiro que faça, caso já tenha lido o livro/assistido ao filme.

"Plot Twist" (plot = enredo/twist = torcido), traduzido literalmente como reviravolta, é um elemento narrativo usado para surpreender os leitores/expectadores.
A wikipedia define Plot Twist como: "[...] uma mudança radical na direção esperada ou prevista da narrativa de um romance, filme, série de televisão, quadrinho, jogo eletrônico ou outra obra narrativa. É uma prática muito usada para manter o interesse do público na obra, para normalmente surpreencê-los com uma revelação."

"Mas como eu uso o Plot Twist em meu texto? Só há uma maneira?"

Claro que não.

Existem vários métodos de introduzir um Plot Twist em uma narrativa. Por falta de didática melhor, acredito que a melhor forma de explicar as diversas formas seja enchendo esse post com inúmeros exemplos. Eles obviamente virão acompanhados de spoiler, a fim de ilustrar da melhor forma possível.

Então peço desculpas desde já, e aviso que os spoilers estarão invisíveis (para ler o spoiler, basta selecionar o texto entre aspas com o mouse).

1) Plor Twist ao fim da narrativa

O tipo de reviravolta que todos conhecem. Nesses casos, o grande clímax da história está justamente em um grande fato ou acontecimento. Ele determinará o fim da história, e é por meio desse grande final que conhecemos obra que ficaram eternizadas.

~Spolers - Clube da Luta (filme de David Fincher)~

"Quem já assistiu sabe que no fim da história descobrimos que o Tyler na verdade era uma projeção do próprio ack, devido suas noites insones e problemas psicológicos.
Mas, o Plot Twist da história se revela apenas ao fim, quando Jack passa a rever todos os acontecimento pela sua ótica, e se vê segurando a arma que Tyler apontava para ele. Naquele momento, é tarde demais para conter o grande plano de Tyler, que acaba ocorrendo. Mas fica subentendido que o romance entre Jack e Marla foi levado a frente - isso é, se ele não foi preso e sobreviveu."

Sendo assim, podemos dizer que a marca registrada desse tipo de elemento narrativo, quando executado da forma acima citada, é a surpresa que só afeta aquele pequeno período de tempo. Nós não veremos o que irá acontecer depois, porque o depois não importa. O choque imediato é suficiente para que qualquer dúvida se torne algo de segundo plano.

2) Plot Twist no início/meio da narrativa

Estamos acostumados a ver reviravoltas acontecerem no final, mas esse tipo de Plot Twist muito me interessa por sua peculiaridade. Diferentemente do que se espera, a história é narrada bem até determinado ponto e depois ainda tem que lidar com os resultados - imediatos e a longo prazo - de sua mudança.

~Spoiler - A favorita (novela de João Emanuel Carneiro)

"Aqui temos duas protagonistas: Flora e Donatella. Por mais de dois meses de novela (exatamente 59 capítulos), o público foi induzido a pensar que Donatella tinha cometido um crime e estava pagando por seus pecados na cadeia. Mas no capítulo 60, eis que surge a magia do twist.
Foi na verdade Flora quem cometeu o crime, e a missão de Donatella passa a ser desmascarar a vilã e reconquistar sua filha, que acabou ficando sob a tutela de Flora enquanto Donatella esteve na cadeia."

O mais legal nesse tipo de reviravolta, é que ainda temos mais da metade dos acontecimentos pela frente. Sendo assim, o autor praticamente desenvolve duas tramas. Além do mais, Plot Twist aqui não serve para dar fim a uma sucessão de fatos, mas para desencadear uma série de novos problemas que deverão ser solucionados até o fim da jornada.
Ou seja, usar a ferramenta do Plot Twist no meio da história é mais para "animar" o público, dando a eles a sensação que a história não é previsível e que muita coisa ainda pode acontecer dali pra frente.


Ainda existem algumas subclasses para os twits:

A) Cronologia reversa: a história, nesses casos, começa justamente pelo seu final. Sendo assim a curiosidade é plantada no "como" a situação prosseguiu até que se chegasse a esse ponto e não no "porquê".

Ex: "Em "Memórias póstumas de Brás Cubas" temos o narrador protagonista contando sua história até que chegasse a morte. Mas ele avisa o leitor logo no início que ele já estava morto."

B) Red herring (ou "distração): usado principalmente em romances policiais, é a reviravolta que pega a todos desprevinidos, pois planta pistas falsas ou oculta informações primordiais para a solução do mistério.

Ex: "Em "Os Outros", vemos uma mãe desesperada com a casa cheia de fantasmas. Durante todo o filme tentamos entender de onde vêm os espíritos e o que fazer para afastá-los. Até que para surpresa geral, na verdade a Nicole Kidman, seus filhos e empregados que estavam mortos. Chocante."

C) Flashbacks: esses aqui são mais do que conhecidos. Usado por 9 em cada 10 ficwriters (e aqueles que nunca usaram, ainda vão), são a melhor forma de justificar uma personagem. Trazendo o que já sabemos de flashbacks para a mecânica do Plot Twist, nesses casos, apenas uma cena do passado é suficiente para mudar todo o enredo futuro.

Ex: "Em "Titanic", o objetivo principal do filme é achar o maldito diamante que todos achavam que tinha se perdido para sempre na imensidão azul. Claro que tudo foi esquecido a partir da primeira cena de Jack e Rose. Até que já estamos nos anos 90 e, de repente, somos transportados de volta a 1912, onde vemos Rose mexer em seu bolso e achar o diamante. Uma cena tão sutil que mudou o rumo da história (para os telespectadores, é claro, já que não faz muita diferença para aquele cara que gastou milhões procurando uma pedra para desistir quando ela finalmente foi lançada ao mar)."

D) Narrador não-confiável: ele está narrando a história em primeira pessoa, então é a única fonte de informação do público. O choque da reviravolta aqui é salientado pelo narrador se dar muito bem/muito mal, mesmo não merecendo. Afinal de contas, ele manipulou toda história a seu favor, deixando difícil para os leitores decidirem o que realmente acham de sua índole.

Ex: "Em "Dom Casmurro", deveríamos ler apenas uma história cotidiana de romance, que virou uma tragédia devido à "infidelidade" de Capituu. Contudo, o narrador da história é o próprio Bento, e nunca ficamos sabendo se ele estava mentindo ou não"

E) Chekhov's gun: é um princípio narrativo que diz que tudo que é colocado em uma narrativa tem um propósito. Em meio a um Plot Twist, o chekhov's gun pode ser qualquer elemento (desde uma personagem até um objeto), que iá ser relevante para o clímax da história.

Ex: "No filme "Um porto seguro" temos a personagem Jo, que se torna amiga de Erin. As duas ficam cada vez mais próximas, e Jo passa a dar várias dicas de relacionamento para que Erin perca seu medo e Alex e ela sejam felizes juntos. No fim descobrimos que Jo é a falecida esposa de Alex, que tirou férias do céu e permaneceu por ali só para ter certeza de que seu amado e filhos teriam um bom futuro."

*(não li o livro, então não posso dizer se a narrativa se repete)

F) Descoberta: a última e não menos importante subcategoria do Plot Twist é a descoberta (ou anagnórise). Nesse caso, a personagem faz uma descoberta sobre si (ou de outro personagem) que muda o rumo da narrativa.

Ex: "Em "O sexto sentido" Bruce Willis está morto. O filme inteiro. O que difere, no entanto, com o Plot Twist Red Herring demonstrado em "Os outros" é o fato de que a narrativa girava em torno do menino, Cole. Então a descoberta nos faz ver que o protagonista nunca foi Cole, e sim Malcolm (por protagonista, falo daquele que precisava "fechar" um ciclo). Claro que temos algumas dinâmicas Red Herring (de deixar pistas soltas que indicavam a morte do psicólogo), mas o choque nesse caso é justamente a mudança súbita da natureza do protagonista."


Ótimo, agora eu tenho muitas referências. Mas como eu utilizo essas dinâmicas no meu texto?

Não existe uma fórmula mágica que faça Plot Twists funcionarem. O grande segredo para uma reviravolta ser bem executada, é ela ter coerência e casar com o texto.
Com isso quero dizer: não force a barra para usar um Plot Twist. Criar uma história mirabolante só para inserir uma ideia que cause choque no leitor não é uma boa ideia.
Além do mais, fazer de Plot Twist uma assinatura sua pode tornar-se, por incrível que pareça, previsível demais.
Um exemplo simples que nem chega a ser um spoiler: George R. R. Martin adora matar suas personagens. O primeiro "protagonista" que morreu causou um tremendo choque e comoção. Mas agora, mesmo ferindo sentimentos alheios, as mortes são apenas o caminho necessário para o decorrer da narrativa. Ou motivo para piada no Facebook. De qualquer forma, aquele choque que sentíamos dos primeiro livros/temporadas de Game os Thrones, agora já passou.
Temos também o diretor de cinema Shyamalan. Depois de "O sexto sentido", vimos "Sinais" e "A vila" serem vendidos como filmes de finais surpreendentes. Mas basta perceber como ambos não geram polêmica pelos seus finais para saber que eles talvez não tenham surpreendido tanto assim.

Conclusão

Reviravolta é um elemento que pode lançar sua narrativa para o sucesso. Tendo um bom enredo e um final surpreendente, é quase impossível a história não receber comentários positivos.
O problema é que a única forma de saber o que funciona e o que não funciona é testando.

Espero então que toda a informação acima auxilie vocês na hora de escolher o tipo de Plot Twist que mais se encaixa com sua história.
Isso é tudo.
Até o próximo post.
Beijos da Ana.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Parágrafos



Quando eu era pequena escrevia tudo sem dar espaço e ninguém nunca entendia nada das minhas histórias, porque ela uma letra empilhada a outra. Depois cresci um pouco e aprendi a colocar espaços entre as palavras, mas passei anos intrigada com aqueles espaços maiores nos meios dos textos, que separavam as histórias em "quadrados cheios de letras". Bom, eu demorei para me acertar com os parágrafos , isto é fato. Mas agora quando eu leio um livro ou uma fanfic, presto atenção no que os parágrafos dizem e eles quase nunca me decepcionam. Se você ler cada um deles com atenção, vai perceber que eles são indispensáveis para a história como um todo e que, no seu mundinho retangular e limitado, também contam uma história particular.

Mas ei, eis que na minha caminhada pelo mundo das fanfics encontrei muitos parágrafos largados de qualquer jeito, que não dizem nada com nada e parecem jiló no meio da sopa de tão inúteis. É por isso que estou aqui hoje, para ensinar a construir um parágrafo de modo que ele cumpra sua função no texto com maestria e para diminuir o desprezo que alguns autores parecem sentir por esse aspecto travesso da escrita. Chegaram ao fim os tempos de começar um parágrafo novo aleatoriamente e sair cortando sua história de qualquer jeito como se ela fosse batata!

Para encontrar harmonia, o escritor deve estudar os elementos da história como se eles fossem instrumentos de uma orquestra (primeiro separadamente, depois em concerto).

Quem disse a frase acima foi Robert McKee, um dos maiores mestres de Hollywood na arte de escrever roteiros. O que ele disse sobre os elementos de uma história também se aplica aos parágrafos, pois os parágrafos não são só elementos de uma história, mas também representam uma arma poderosa para atingir a alma do seu leitor.
Não estou dizendo para vocês escreverem um parágrafo de cada vez sem se importar com a história como um todo. Só porque você vai olhar para eles de modo individual, não quer dizer que eles não devem se ligar uns aos outros. Como os ossos do nosso corpo, cada um tem uma função e um sistema de ossos, como o das mãos, permite que peguemos objetos ou acenemos. E todos os ossos juntos formam uma figura única, a sua ou a minha.
Assim são os parágrafos: pense neles como ossos ou como instrumentos, mas saiba que para um corpo ou uma orquestra funcionar corretamente, eles precisam estar exercendo sua função corretamente.

Enfim, qual é a função do parágrafo?

Como eu disse, ele conta uma história, esta pode ser curta ou longa, pode narrar uma passagem de anos ou um segundo. Assim como a frase "A próxima coisa a fazer era comer os confeitos" conta uma história, o parágrafo: "A próxima coisa a fazer era comer os confeitos; isso causou algum barulho e bagunça, pois os pássaros grandes reclamavam que não podiam saborear os seus e os pequenos engasgavam e tinham que levar palmadas nas costas. Entretanto, afinal todos terminaram e sentaram-se em círculo, pedindo ao Rato para lhes contar alguma coisa." (Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll) Ele conta outra coisa, muito parecida como a primeira, uma vez que é consequência dela.
O trabalho do autor é reunir em um parágrafo as pequenas história das frases de modo que elas se juntem uma a outra. No primeiro caso, da frase, a história era sobre como chegara a hora de comer os confeitos. No segundo, a história era o processo de comer esses confeitos e o comportamento das personagens em relação a ele. Assim, podemos dizer que cada parágrafo deve cumprir um objetivo, passar uma mensagem que diz respeitos somente a ele e, por isso, reunir as frases necessárias.
Às vezes essa mensagem é simples e o escritor quer que ela seja percebida de tal maneira, sem enrolações, é o caso de parágrafos curtos que narram um único movimento ou pensamentos (e que geralmente fazem um tan tan tan TAN soar na cabeça do leitor depois de lido). Um exemplo, também de Alice no País das Maravilhas, é:
"Vejam só, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente que Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente impossíveis". Nesse caso, o autor queria destacar apenas aquela frase e juntar outras a ela, num parágrafo maior, faria com que a atenção do leitor se dispersasse quando deveria se focar na mensagem que aquela única frase estava passando.

Então o tamanho do parágrafo não importa? Claro que importa!

Pois eu acabei de deixar o parágrafo anterior pequeno porque queria que você prestasse atenção naquele único fato: o tamanho dos parágrafos.
Enquanto que agora vou precisar de um parágrafo maior para passar uma mensagem diferente: por que o tamanho importa? O tamanho importa por causa do ritmo, porque é através do tamanho dos parágrafos, assim como da pontuação, que o autor dita o ritmo da leitura de sua história, separando quais eventos devem ser narrados e lidos juntos e quais devem ser separados uns dos outros.
Lembra-se do que eu disse sobre meu problema com os espaços quando eu era criança? Pois bem, não é muito diferente no que diz respeito aos parágrafos. Tanto eles quanto os espaços ditam o ritmo de uma narrativa, são instrumentos de uma orquestra da qual o escritor é o maestro.

Quando eu escrevo tudo m u i t o s e p a r a d o, a leitura fica pausada e é difícil para o leitor perceber o que eu quero dizer no fim das contas, pois lhe foram dadas informações picadas e que, sozinhas, não dizem muita coisa. Já quando euescrevotudojuntoeapertadosemdartempopararespirar, a leitura fica rápida e atropelada, e o leitor se perde no meio dela, confuso entre os detalhes nos quais nãos prestou muita atenção, porque nãos lhes foi dada a ênfase necessária.
Do mesmo modo, se eu escrevo uma história apenas com pequenos parágrafos, a leitura fica cheia de pausas, lenta e com muitas informações jogadas de qualquer jeito. E quando eu escrevo parágrafos grandes demais, em algum momento o leitor vai se perder e as informações vão deixando de atingi-lo com o impacto desejado, pois uma informação vai ofuscar a importância da outra.

Você pode, sim, escrever um parágrafo gigantesco se quiser (e precisar). Para ponderar sobre o tamanho do parágrafo, vale a regra da associação entre ideias que se ligam para passar uma mensagem específica. O importante é que quando você ler o parágrafo, você possa perceber qual foi o objetivo dele e se o mesmo foi alcançado como deveria. Naturalmente, o tamanho do parágrafo vai variar e se o objetivo é fornecer ao leitor uma visão completa de uma paisagem ou fazer com que ele grave uma única frase de efeito.

Então três passos importantes para a construção de um parágrafo:

1) Ter em mente exatamente o que ele deve dizer.
2) Utilizar frases e ideias que se ligam para passar essa mensagem, mas que também possuam uma função individual.
3) Ao fim do parágrafo, deixar abertura para o início de outro.

É claro que com o tempo, construir um parágrafo se torna tão automático quanto tocar um violino é para um violinista. Mas mesmo os autores acostumados a escrever devem revisar a própria história, prestando atenção nos parágrafos porque todos correm o risco de escrever um parágrafo inútil, incompleto ou sem a estrutura adequada.
E uma vez que setem em mente que cada parágrafo deve contar sua história, se você escrever um parágrafo por dia vai adicionar história à sua história. Uma boa alternativa para aqueles presos entre as garras da falta de inspiração é escrever um parágrafo por dia, esforçando-se ao máximo para que ele seja decente.
De parágrafo em parágrafo, surgem livros e séries. No entanto, sem os parágrafos não há nada.


Isso é tudo.
Até o próximo.
Beijos da Ana.

Denotação X Conotação


Hey pessoas. Neste post eu falarei sobre denotação e conotação. Essas duas ferramentas da língua portuguesa, quando utilizadas corretamente, podem fazer uma grande diferença no texto. Grande parte dos ficwriters usam-na sem nem mesmo distinguir uma da outra ou sem ter ciência de que estão a usando. Vamos começar com suas definições:

Denotação: é o uso da palavra em seu sentido original, aquele primeiro sentido que aparece no dicionário. Exemplo: sereia, no sentido real, seria o ser marinho com aparência de mulher que, com seu canto, atrai pescadores e os mata.

Conotação: é o uso da palavra no sentido figurado, simbólico. Exemplo: sereia, cuja palavra, usada como gíria, pode referir-se a uma mulher bonita.

Uma pedra no caminho pode referir-se a uma pedra de verdade ou, figuradamente, a um obstáculo a ser vencido. A linguagem conotativa pode estar  entrelaçada às metáforas de modo muito significativo, por exemplo, na expressão "aquele rapaz é um gato". Se ele é um rapaz, então não é um gato (animal), mas ele pode ser um gato (bonito, lindo).

Muitas vezes a linguagem conotativa é usada em poemas e em narrações de romances, mas também pode ser vista em livros de terror com termos como "tremer de medo", porque o medo pode causar tremor, mas há a conotação do termo tremer, que seria algo como "sentir muito medo".

Já quando se fala em denotação, vemos textos mais técnicos, como artigos de jornais, reportagens e biografias. O foco é usar a palavra para relatar o que ela realmente é, seja um objeto, uma cena. Dizer que nuvens são como algodão, brancas, macias e leves é usar a conotação. Sabemos que ela é branca, mas já a tocamos para saber se é leve ou macia?

Então, podemos dizer que a conotação é usada também para comparar uma coisa a outra sem realmente compará-la (já que seus valores em si são diferentes), ou quando não se sabe como colocá-la em palavras, cria-se uma imagem de como ele seria.

As estrelas são poeira cósmica, pessoas que já faleceram, vaga-lumes, pontos brilhantes no céu ou cometas? É tudo muito relativo, mas ela pode ser usada como simbologia ou em forma verdadeira. O que revelará se sua linguagem é conotativa ou denotativa será o tipo de texto que está sendo escrito. Eis, portanto, um poema para reflexão (onde o sol é usado conotativamente):

O sol é o pé e a mão
O sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão
O sol se põe se vai
E após se pôr
O sol renasce no Japão
...
Que os braços sentem
E os olhos veem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção
Que os braços sentem
E os olhos veem
Que os lábios beijam
Dois rios inteiros
Sem direção
(Dois rios - Skank)

Aqui temos a "versão" denotativa do sol:

O Sol (do latim som, solis) é a estrela central do Sistema Solar. Todos os outros corpos do Sistema Solar, como planetas, planetas anões, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram aos seu redor. Responsável por 99.86% da massa do Sistema Solar, o Sol possui uma massa 332 900 vezes maior que a da Terra, e um volume 1 300 000 vezes maior que o do nosso planeta.

As diferenças são bem visíveis, não? Então, desfrutem bastante dessa diferença e usem as palavras do modo como acharem melhor para seus textos.


Isso é tudo.
Até o próximo.
Beijos da Ana.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pronomes reflexivos e pronomes recíprocos

Hoje trago um post falando especificamente sobre pronomes reflexivos e pronomes recíprocos.

Os pronomes reflexivos muitas vezes são negligenciados pelo pouco uso, desconhecimento ou falta de atenção. Como assim?

Pois bem, para iniciarmos, precisamos antes saber qual é a função do pronome reflexivo:

O pronome reflexivo indica que a ação do sujeito nele próprio.

O pronome reflexivo é usado quando quem faz a ação é ao mesmo tempo quem a recebe.

Por exemplo:
Eu me cortei ontem.
Eu cortei. Cortei quem? Eu mesmo.

Encontro sempre por aí algumas situações em que o pronome não é usado por uma questão de oralidade, ou seja, a falta do costume de usá-lo no dia a dia. Veja a seguir:

Eu sentei no banco.
Eles se julgavam.
Eu se machuquei.

Observe os exemplos em que o pronome foi usado foi usado de modo inadequado ou não foi usado. No caso do primeiro, "eu sentei no banco", o correto seria "eu me sentei no banco". No segundo caso, "eles se julgavam", devia ser eles julgavam a si mesmos. E, no último, "eu se machuquei", "eu me machuquei".

Os pronomes reflexivos estão diretamente ligados aos pronomes oblíquos, sendo os átonos:

Eu - Me
Tu - Te
Ele/Ela - Se*
Nós - Nos
Vós - Vos
Eles/Elas - Se*

*a forma do pronome é a mesma na terceira pessoa do singular e na terceira pessoa do plural.

Há também os pronomes reflexivos que acompanham os pronomes oblíquos tônicos. São eles si e consigo (Ele chamou a si mesmo de indulgente. / Preocupe-se consigo mesmo).

Não há segredo. Para descobrir se é necessário ou não o uso do pronome reflexivo, basta analisar o sujeito e o objeto da ação.

Agora falaremos sobre o pronome recíproco.

O pronome recíproco indica ação mútua entro os sujeitos.

No caso do pronome recíproco, uma observação inicial é necessário: todo pronome recíproco é um pronome reflexivo, nem todo pronome reflexivo é um pronome recíproco. Como assim? Eu não entendi. Pois é, parece bastante complicado, mas não é.

Os pronomes reflexivos nos, vos e se, representando as pessoas do plural (nós, vós, eles/elas), aparecem, em algumas circunstâncias, causando ambiguidade. Veja a seguir:

João e Maria enganaram-se.

Há duas interpretações para a sentença acima. Primeira: ambos, João e Maria, cometeram um engano. Segunda: João enganou Maria e Maria enganou João. Diante da ambiguidade, não há um certo ou errado, fica a critério do leitor escolher o significado, o que, na escrita, é fundamental evitar.

Portanto, o correto seria, para a primeira interpretação, "João e Maria enganaram-se a si mesmos", enquanto, na segunda, "João e Maria enganaram-se um ao outro".

é necessário atentar-se sempre à ambiguidade e evitá-lá. Então, se o sujeito e o objeto da ação forem os mesmos e o pronome estiver em alguma das pessoas do plural, você pode estar diante de um caso de pronome recíproco, nesse caso, pode existir mais de um significado para a sua frase.

Mesmo que esses tipos de pronomes estejam caindo em desuso na linguagem coloquial, ainda são imprescritíveis na linguagem culta e fazem muita diferença no sentido de uma sentença.



Espero ter ajudado.
Até o próximo post.
Beijos da Ana.

domingo, 19 de julho de 2015

O que é fanfic?

1) Definição e surgimento das fanfics:

O termo fanfic se trata de uma abreviação de fan fiction (ou fanfiction), designado a ficção feita por fã, sem caráter comercial ou lucrativo, a partir de uma determinada história criada por terceiros. As proposições de que parte o escritor (ou ficwriter) para criação de uma fanfic são infinitas, podendo ser a justificativa de um aspecto da história "original"; a alteração de certos acontecimentos e desfechos, dentre infinitas outras.
Da mesma forma, o "universo original" que serve de cenário (ou fandom) para um fanfic pode ser qualquer um e pertencer aos variados âmbitos, como séries de televisão, animes, bandas, novelas...

Com relação  aos direitos autorais, de modo geral, considera-se que escrever uma fanfic não constituí uma violação de propriedade intelectual desde que a obra não seja comercializada e nem vise lucro. Ainda assim, juristas recomendam que o ficwriter acrescente no início do texto uma pequena nota legal declarando quem realmente é o detentor dos direitos autorais, além de esclarecer que a história em questão não pretende obter qualquer forma de ganho financeiro.

Pense que as fanfics sejam tão antigas quanto a própria ficção, originando-se por meio do simples ato de uma pessoa escrever à mão um final diferente para sua história preferida. Entretanto esse fenômeno explodiu nos anos 60 com o advento das séries de televisão (creio eu, norte-americanas) que terminou por ganhar seguidores cult. Nina Neivane no site sosficwriter, aponta também a existência de histórias feitas por fãs partindo do universo Sherlock Holmes que remonta o fim do século XIX - lembrando que o primeiro romance sobre o detetive é publicado em 1887.

De toda forma, a disseminação das fanfictions é, maiormente, associada à Star Trek. Jane Harmon, no site wisegeek,com, afirma que as reuniões de fãs de Star Trek propiciaram o compartilhamento dessas histórias originalmente mimeografadas ou feitas à mão (como fanzines, ou zines).

Não há dados concretos sobre o aparecimento das fanfics no Brasil. Acredito que o fenômeno tenha se consolidado com a exibição de Cavaleiros do Zodíaco, em 1994, pela Rede Manchete. Inclusive, algumas revistas, como a Herói (1994) e Heróis do Futuro(1995), chegaram a publicar histórias de fãs em seus números, à exibição de Sailor Moon, em 1996, também pela extinta Manchete. Os grandes responsáveis por essa promoção podem ter sido sites como os Moonies (encerrado) e o S.O.S. Sailor Moon, que disponibilizavam, em meados de 1998, os arquivos em doc.

2) Tipos de fanfics:

É difícil classificar qualquer texto ficcional contemporâneo, sabendo que este se apresenta como uma mistura de vários gêneros. No caso das fanfic, isso é amplificado enormemente, sendo a mistura parte de sua natureza, tendo em conta que o autor mescla uma história original a um contexto pré-estabelecido, faz a junção de universos completamente diferentes (criando uma única história baseando-se nos cenários de Harry Potter e Crepúsculo, por exemplo) cria novos personagens que interagem com aqueles que já fazem parte história "original", estende a participação de certos coadjuvantes, modifica o enredo, a estrutura e linguagem das histórias utilizadas como ponto de partida. Ainda assim, eu, assumindo a responsabilidade, arriscaria a "abrigar" as fanfics entre o gênero narrativo e dramático, dada sua estruturação em narrar acontecimentos e a ênfase demasiado forme nos diálogos, na construção pormenorizada das imagens que configuram o ambiente e na progressão dos fatos.

Posso perceber que essas histórias, escritas por um público heterogêneo, foram se estruturando e se subdividindo de maneira quase empírica, grosso modo, distantes das classificações tradicionais. Dessa forma, a classificação das fanfics segue uma lógica diferente, misturando conceitos tirados do universo mangá/anime, da cinematografia e das classificações norte-americanas de cunho indefinido. Visto isso, as fanfics se categorizam da seguinte forma:

A) Quanto a extensão:

I. Drabble: Fanfic escrita com 100 palavras.
II. Double Drabble: É uma fanfic com, no máximo, 200 palavras.
III. Oneshot: Fanfic que contém somente um capítulo (one-shot: um-tiro - por ser uma leitura rápida), seja ele curto e postado de uma só vez ou londo e postado em partes.
IV. Shorfics: Fanfics breves, escritas em poucos capítulos.
V. Logfic;Saga: Fanfics longas, escritas em muitos capítulos.

B) Quanto a estrutura:

I. Canon: Fanfics que seguem o "cânone", ou seja, fiéis à "original", principalmente em termos de caracterização de personagens e manutenção dos casais (ou shippings).
II. CrossOver: Fanfics que se misturam universos (fanfoms) diferentes. Ex: Pokémon/Digimon, Harry Potter/Star Wars.
III. PWP (Plot? What plot?): "Enredo? Que enredo?" Esse tipo de fanfic não tem muito enredo, dando prioridade às cenas de sexo.
IV. Side Story: Fanfics curtas que explicam um fato ocorrido em outra fanfic, como uma especie de "bônus". Trata-se de um capítulo que não se encaixa no meio da história original.
V. Songfic: Fanfics escritas acompanhadas de letra (e/ou tradução) da música, escolhida pelo(a) autor(a) como trilha sonora.. Geralmente seu gênero é drama e são Oneshots ou Shorfics.
VI. TWT (Time? What time?): Histórias que não seguem um tempo cronológico.
VII: Darkfic/Angst: Fanfics abundantes em cenas depressivas, atmosferas sombrias e situações angustiantes. É o contrário das fanfics definidas pelo termo "waaffy".

C) Quanto a temática:

I. Amizade: Fanfics sobre amizade em geral.
II. Citrus: FaNfics sobre romance adulto; pode ou não conter cenas de sexo.
III. Femslash/Yuri: Fanfics sobre relacionamento homossexual feminino.
IV. Lolicon: Fanfics sobre romance entre uma mulher mais nova e uma mulher/homem mais velho(a) - termo deriva da estória "Lolita".
V. Shonen-ai: Fanfics sobre relacionamento entre homens, geralmente platônico.
VI. Shoujo-ai: Fanfics sobre relacionamentos entre mulheres, geralmente platônico.
VII. Shotacon: Fanfic com romance entre um homem/mulher mais velho com um menino.
VIII. Slash;Yaoi: Fanfic cujo tema principal concentra-se na relação geralmente amorosa entre dois homens. "Slash" é a palavra em inglês para "barra".

D) Quanto a avisos:

I. Bondage: Quando ocorre na fanfic imobilização de um dos parceiros para satisfação sexual.
II. Deathfic: Onde pelo menos um personagem principal morre.
III. Fanon: Indica a presença de ideias já propagadas em outras fanfics e que se tornaram tão populares quanto a obra original.
IV. Fetichismo: Atração por peças de roupas, objetos ou determinadas partes do corpo.
V. Hentai ou Restrita: Fanfics com cenas de ita: Fanfics com cenas de sexo (explícitas).
VI. Lemon: Fanfic com cenas de sexo homossexual, entre homens, explícito.
VII. Orange: Fanfic com cenas de sexo homossexual, entre mulheres, explícito.
VIII. Lime/Ecchi: História com cenas de sexo implícito, tanto entre caais hétero quanto homossexuais.
IX. NCS (Non Consensual Sex): Quando ocorre uma relação sexual sem o consentimento total de um dos parceiros.
X. OC (Original Character): Quando a fanfic possui algum personagem criado pelo autor da fanfic.
XI. OOC (Out Of Character): Quando o personagem age de forma diferente do habitual.
XII. SM:  Fanfic com cenas de sadomasoquismo.
XIII. Threesome: Fanfic com cenas de sexo entre três pessoas.
XIV. Dark Lemon/Orange: Fanfics com cenas de sexo homossexual com violência explícita, geralmente estupro.

E) Quanto ao estilo:

I. Fluffy/waffy: Fanfic extremamente açucarada. Chega a ser mais do que um romance, onde os personagens são carinhosos.
II. Doujinshi: Normalmente, o termo se refere a mangás/fanzines de artistas não profissionalizados, podendo conter tanto histórias originais quanto baseadas em um mangá ou um anime da moda. Entretanto, escritores de fanfics que se dedicam em criar histórias inspiradas em animes e mangás classificam seus trabalhos como doujinshi, mesmo quando é apenas texto e não possui ilustrações, o que configura uma classificação arbitrária
III. Mary Sue: Alguns tipos de fanfics são chamas por Mary Sue por possuírem um formato mais "açucarado", marcado por um tom melodramático e apelativo. O nome do estilo é uma homenagem á Tenente Mary Sue, uma personagem de fanfics de Jornada das Estrelas dos anos 80 que definiu o arquétipo da personagem perfeita altamente idealizada. Também são chamadas de Mary Sue (ou Gary Stu, na versão masculina) as fanfictions onde a personagem principal é completamente inatingível.
IV. R.A. (Realidade Alternativa): Quando a fanfic é escrita com os mesmo personagens e locais daqueles criados pelo(a) autor(a) original, porém, um dos fatos mudam.
V. SAP (Sweet As Possible): Significa: tão doce quanto possível. Trata-se de uma fanfic açucarada, mas não ao ponto de ser Mary Sue.
VI. Self Inserction: Quando o ficwriter (escritor) participa da trama, interagindo com os personagens.
VII. U.A. (Universo Alternativo): Quando a fanfic se passa em um mundo diferente daquele criado pelo(a) autor(a) original da série, mas utilizando os personagens já existentes na história, na maioria das vezes buscando não alterar as características físicas e psicológicas da personagens.
VIII. What If: O que aconteceria se a história tomasse um rumo diferente.

F) Quanto ao gênero:

I. Ação.
II. Aventura.
III. Comédia.
IV. Drama (certamente redundância com a estrutura darkfic/angst);
V. Fantasia.
VI. Ficção Científica.
VII. Furry: História em que há presença de personagens animais humanizados.
VIII. Humor Negro.
IX. Mistério.
X. Suspense.
XI. Terror.
XII. Romance.

G) Outros:

I. MPREG: Male Pregnant. Fanfic onde personagens do sexo masculino tem a capacidade de engravidar.
II. Voyeurism: Quando se observa alguém com objetivo de obter satisfação sexual.

Em verdade há uma terminologia muito mais ampla do que essas, entretanto, muitas das terminações são redundantes em reação às que já foram mencionadas. Dessa forma, a lista que apresento está mais "enxuta" e mais oportuna para a classificação das fanfics, sem perder o caráter das nomenclaturas inerente ao "subgênero".

3)"Originais":

Não sei se em todos os sites especializados em fanfics é possível notar que há uma categoria especial para as fanfics denominadas "originais". Denominadas por muitos apenas como "fics" em lugares de fanfics, essas histórias não são baseadas em nenhum fandom, configurando-se criações desse público também autor de fanfics.
É um fenômeno curioso, pois, nesse caso, não se está olhando para o fato de que uma fanfic se baseia em uma criação de fãs a partir de uma obra já existente, mas para o fato de os criadores desses originais não visarem qualquer forma de lucro com a história escrita, ampliando, assim, a noção do termo fanfic.


Isso é tudo por este post.
Até o próximo.
Beijos da Ana.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A personagem



Quando criamos uma personagem, temos sempre uma ideia geral da função que ela terá no livro/fanfic, entretanto, a sua personalidade e o entendimento feito pelo leitor são dados através da sua indispensável caracterização. Logo, ao analisarmos que as personagens são as agentes das ações e que as ações são os atrativos para o leitor prosseguir com a sua leitura, percebemos a importância desses operadores da narrativa.

Ao refletirmos sobre os nossos livros favoritos, reparamos que a forma como as personagens agem, falam e pensam, ajudam a tornar a história mais crível, o que gera certa conexão entre o leitor e a história. Por isso, a medida que os desejos, as motivações, as frustrações, as intenções, entre outros, são investigados pelo leitor e servem de elementos atrativos a ele, a parte psicológica é a principal na caracterização de personagens.
Assim, ainda que pensemos primeiro nas formas físicas deles, temos de dar prioridade à psicológica, que influenciará tanto no rumo da história quanto na conexão com aquele a quem destinamos a leitura.

Tendo o processo de caracterização, mediante as particularidades psicológicas, a meta de tornar mais realista a personagem, temos de enfatizar a ideia de que queremos dar características mais humanas aos personagens (independentemente de eles serem sobrenaturais ou não).
Entretanto, não devemos começar querendo fazer algo muito complexo ou complicado, temos de dar prioridade aos seus carácteres que influenciarão no enredo.

Entendido isso, o processo de caracterização deve compreender a existência de dois tipos de personagens: as simples e as complexas.
Assim, temos:

1) Personagens simples: são fundamentados em um traço principal da sua personalidade, que se repete diversas vezes durante a narrativa. Porém não mudar a sua forma de ser, permanecendo assim do início ao fim da história, sendo previsíveis (nesse caso, são chamados de personagens planas). Também podem funcionar como caricaturas de uma profissão, classe social ou comportamento (nesse contexto, são personagens tipo).
Quando bem trabalhados, cumprem o importante papel de contrastar com personagens complexos, servindo de referencial à sua transformação durante a narrativa.

2) Personagens complexas: expressam a complexidade da natureza humana com as suas ambiguidades, contradições e mistérios. Diferentemente das personagens simples, estas são imprevisíveis, possuem grande vida interior e tendem a mudar o seu modo de ser durante a narrativa.
As grandes histórias são construídas ao redor delas, pois elas são responsáveis por dramatizar o tema da história. Além disso, as metáforas feitas por essa pessoa, normalmente, tratam-se da forma como o escritor vê o mundo.

Além de ser fundamental sabermos a qual categoria pertence o nosso personagem, temos de nos perguntas mais três coisas e respondê-las:

1) Quem é esse personagem: Reflitamos sobre os aspectos físicos (cor dos olhos, pele, cabelo, estatura, peso, porte), psicológicos (traumas, medos, segredos, atitude, personalidade, experiências) e culturais (roupas, hábitos, costumes, crenças).

2) O que ele deseja? Qual é o seu objetivo? E qual é o seu papel no enredo e a sua influência sobre os demais?

3) Qual é a sua motivação? O que o move? O que o influencia? É o seu objetivo? É o seu status social? O personagem está em busca de se autoconhecer? Ou de um sentimento para seguir vivendo?

Entretanto, evitemos vir com essa de "ele era alto, moreno, forte" e não sei mais quantos adjetivos seguidos fornecidos pelo narrador. Esse tipo de caracterização se denomina caracterização direta, em que o leitor recebe diretamente o caráter e a fisionomia do personagem.
Ela também pode ser feita através de monólogos, cartas, canções, sonhos e afins ou através de falas ou pensamentos de outros personagens ou de si mesma.

Porém, ainda que seja desafiante, através da caracterização indireta, podemos influenciar descobertas ao leitor através das ações das personagens. Deixemos que o leitor desvende os agentes através da leitura.
Usemos o cenário para das esse gosto ao interessado, especialmente no lugar de escrevermos flashbacks e descrições que sejam redundantes ou que afastem o leitor da ação que está acontecendo e que é verdadeiramente importante.

Essas pistas podem vir através do local de trabalho, da residência humilde ou de um estranho hábito que implica uma característica atual. Por exemplo, o simples fato de citarmos que o personagem X entrou em um quarto desorganizado onde só dava para acessar a sua cama, em que ele dormiu por várias horas seguidas, demonstra que X é bagunceiro e dorminhoco.

Além desses dois tipos, existe a caracterização mista, que é a forma mais comum em romances. Há certos balanceamento entre a caracterização direta e indireta, medindo, como sempre, os exageros.

Enquanto pensamos nas características de cada ser da história, também devemos refletir sobre o seu papel para a trama. Logo, temos de saber as opções que podem ser dadas a eles. Não é necessário, todavia, que incluamos todos juntos em uma mesma história, mas existem oito níveis de importância das personagens.
São eles:

1) Protagonista: tudo gira ao seu redor. Reparamos já que isso soa um pouco egoísta, mas essa característica será dada por nós mesmos, os escritores. O protagonista é o eixo da história, aquela pessoa mais bem desenvolvida na narrativa.

2) Personagem central: pode ser ou pode não ser o próprio protagonista. O personagem central se encarrega por despertar maior curiosidade ao leitor, por instigá-lo a continuar lendo. E essa é, justamente, a maior diferença se comparado ao protagonista. O último envolve o leitor, principalmente pela ação enquanto o primeiro instiga curiosidade.

3) Coprotagonista: em uma metáfora, serio o ajudante do super-herói. O coprotagonista ajuda o protagonista a atingir a sua meta, normalmente tendo uma relação próxima com o principal.

4) Antagonista: é o que chamamos de vilão nas novelas brasileiras e mexicanas. É aquele ser que complica a vida do protagonista ou representa uma ameaça à coisa almejada pelo principal.

5) Oponente: é o ajudante do antagonista. Ele auxilia o antagonista a dificultar a vida do protagonista.

6) Falso protagonista: é uma personagem que é posta na trama para enganar o leitor. Ela ginge ser a protagonista, mas durante a trama, se revela quem é a verdadeira, dando um efeito surpresa à narrativa.

7) Coadjuvante: é uma personagem secundária que auxilia, complicando ou ajudando, no desenvolvimento da história.

8) Figurante: é uma personagem que é utilizada para compor o cenário, sem ter interferência alguma no enredo (senão, seria coadjuvante).

Também podemos classificar a existência de personagens em quatro tipos:

1) Real ou histórico: com o certo grau de fidelidade, são tentativas do autor de reproduzir pessoas que já existiram.

2) Fictício ou ficcional: são fundamentados em pessoas reais, vivendo história que poderiam acontecer.

3) Real-ficcional: são personagem reais, mas com algumas características fictícias.

4) Ficcional-ficcional: normalmente presentes em gêneros de ficção científica, fantasia e terror, são personagens totalmente ficcionais com características (tanto físicas quanto psicológicas) só possíveis no contexto imaginativo da ficção.

Relembrando o que foi dito anteriormente, é importante deixarmos, pelo menos, o protagonista com características humanas para o leitor crer no nosso ser fictício. Se ele o fizer, quererá continuar lendo a narrativa para ver como essa pessoa com quem ele se identificou, terminará.
Claro que podemos inserir seres ficcionais-ficcionais, mas não podemos afastar muito o leitor com o excesso deles.

Se vamos escrever as características das personagens antes da história ou se as identificarmos durante, é indiferente. Isso se trata de preferências de cada escritor, não há uma fórmula exata (como tudo na escrita). Apenas é evitável alterá-los radicalmente e sem propósito algum.
Prever as características e as ações ajuda nesse processo de roteiro. Além disso, é importante equilibrar a lógica e as emoções e saber discernir o que é excesso de informação e se essa é essencial para o texto ou não. Lembrando sempre: quanto mais limpa a narrativa, melhor.


Como se cria uma personagem?

Como já vimos, as personagens configuram uma parte importantíssima da história. Podem movimentá-la, travá-la para sempre, marcá-la ou deixar a história tão batida que mesmo um enredo incrível não vai conseguir tirar aquele ar sem graça à medida que você vai avançando os parágrafos.
Então, como se constrói um bom personagem?

Algo que eu notei ao longo dos anos escrevendo e lendo fanfics (até mesmo em alguns livros, para ser sincera) é que a maioria dos autores não aprofunda seus personagens. Em algumas fanfics, é só aquilo mesmo, a pessoa coloca uma foto da celebridade que se assemelha a eles fisicamente e pronto! Nem uma descrição de duas linhas eles ganham.~

Claro que você não precisa inventar uma segunda história para dar vida a cada uma de suas criações, mas é interessante que tenhamos ao menos alguns detalhes em mente na hora de escrever, até para que tudo flua mais lógica e naturalmente. "É isso que Fulano diria aqui" "É assim que Fulano agiria nessa situação",

Nas minhas andanças pela internet, encontrei uma ficha, presente num livro sobre animação, com as perguntas básicas que você pode se fazer quando cria uma personagem.
Obviamente, ela não contém todas as informações que você pode querer adicionar ou, dependendo do caso, talvez contenha informações até demais, porém, é muito útil para se ter uma base e, a partir daí, formar cada personagem seu aos pouquinhos.
A ficha se encontra abaixo. Sintam-se livres para usar e chega de personagens superficiais.

Ficha das personagens

Idade: Qual é a idade da sua personagem agora? Ela está muito diferente de quando era mais nova?

Etnia: Quais são as origens da personagem? Como ela se sente sobre elas?

Altura: Qual é a altura da personagem? Como isso afeta a maneira com que ela vê seu lugar no mundo.

Peso: Qual é o peso da personagem? Como os outros a tratam por causa dele, se for diferente do normal?

Sexo/Reprodução: Como a personagem se reproduz? Ela faz sexo? Ela é virgem? Como isso muda seu comportamento?

Gênero: Qual é o sexo da personagem? Como isso altera seu papel e status no mundo e dentro de sua família?

Saúde: A personagem é deficiente? Se sim, ela nasceu assim? Ela tem asma? Como sua saúde a afeta a atingir seus objetivos?

Inteligência: A personagem tem um nível normal de intelecto ou abaixo do normal? Ela é um gênio? Como esse intelecto a faz reagir com as pessoas em volta?

Educação: Não é para ser confundido com inteligência, você pode ser estudioso e não ter nenhum bom senso. A personagem é alguém que foi educado nas melhores escolas ou ela largou talvez o ensino médio? Essas coisas afetarão muito como ela interage com outras pessoas que acha que não são do seu nível ou à altura de quem ela acha que nunca estará.

Ciclo evolutivo: Esta é a expectativa de vida da personagem. Obviamente, se você está lidando com humanos sabe a duração mínima, porém, muitas vezes em histórias trabalhamos com aliens, animais ou mesmo pessoas de épocas em que a expectativa de vida era bem menor.

Cultura: Essa parte se refere às crenças da personagem. Isso pesa muito na mente dela, mesmo que ela não acredite mas nas coisas em que foi educado, porque é a única coisa que ela conhece - é como foi ensinado desde pequena.

Comida/Alimentação: A comida que sua personagem come pode revelar como ela vê a si mesma e a seu corpo. Ela é uma atleta que só pode comer certas coisas? É uma motorista de caminhão desempregada que ama cachorro-quente com chili?

Noturno: A personagem é mais ativo durante a noite? Ela gosta de ficar acordado até tarde?

Família: Valores? Tamanho? A estrutura da família tem um grande papel na formação de sua personagem e em como ela vê seu lugar no mundo. Se ela veio de uma família grande, ela pode ser barulhenta e escandalosa de tanto se fazer ouvir. Se for filha única, pode ser mais introvertido e tímido, ficar na dela.

Dinheiro: A personagem é rica? Pobre? Destituída? Terrivelmente rica?

Profissão: O que a personagem faz da vida? Como isso contribui para que ele atinja seus objetivos ou a impede de alcançá-los?

Estrutura corporal: Esse atributo afeta totalmente como a personagem se move e como ela é vista pelos outros. Ela é grande e magricela? Ela anda engraçado? Ela é pequena e passa despercebida?

Defeitos (fatal): Defeitos são cruciais para mostrar humanidade. Eles também podem trazer a morte da personagem ou ser o obstáculo entre ele e seu objetivo.

Idiossincrasias: O que faz da personagem diferente? É assim que você cria uma personagem memorável. Ela fuma um cachimbo? Ela inclina a cabeça quando fala? Ela tem gagueira? São esses detalhes interessantes que farão de sua personagem, independente do modelo que você escolha, diferente do resto.

Ambiente: Como um ambiente de uma igreja versus uma batida de carro influencia a personagem? Ela pode ter tido experiências nas quais reagiu de maneira fora do normal por causa do seu passado. Talvez ela tenha tido uma mãe que entrava e saía de hospitais a vida toda, então ela simplesmente não suporta mais entrar em um.

Objetivos: O que sua personagem quer? O que ela deseja mais do que tudo? Como ela pode fazer isso acontecer? Do que ela precisa?

Sonhos: Quais são os sonhos de sua personagem? Sonhos são ambições altas que temos, mas que podem ser tão altas que estão fora de alcance. Diferente dos objetivos, sonhos parecem estar bem distante no futuro. Sonhos e objetivos são similares porque sonhos logo  podem virar nossos objetivos à medida que chegamos mais perto de fazê-lo virar realidade.

Trauma: Sua personagem teve algum trauma?Trauma é algo que aconteceu no passado e que afeta como sua personagem age. Esses momentos tensos ficam conosco por um longo tempo e nos fazem pensar sobre o que queremos e no que acreditamos.

Talento: Sua personagem tem algum talento? O que a faz diferente das outras personagens da história?

Vícios: Sua personagem bebe? Fuma? Se droga? É viciada em comprimidos para dr? Essas coisas podem ajudá-la ou impedi-la de atingir seus objetivos.






"Nunca trate uma personagem como tapa-buraco ou um mero mecanismo para avançar seu enredo." (Bill Wright)

"Bons vilões começam como quaisquer personagens memoráveis - com humanidade. Um bom vilão é um ser humano com um defeito fatal." (Angie Jones e Jamie Oliff)






Isso é tudo por este post. Espero ter ajudado.
Até o próximo.
Beijos da Ana.

Pontuando diálogos

Hey, people.

Hoje trago aqui ao blog um post que penso que lhes será muito útil. Venho falar de diálogos.

Afinal, você sabem pontuar diálogos corretamente ou não? Sabem onde devem aparecer pontos finais, as vírgulas, as maiúsculas...? Usam aspas ou travessão? E que tipo de aspas? E, afinal, como podem inserir o símbolo do travessão no texto?

Pois é, essas são algumas das questões mais frequentes que eu espero que fiquem esclarecidas quando este post chegar ao fim.

Vamos ir para a primeira parte:


Aspas ou travessão? Afinal, qual é a diferença?

Na verdade, podem pontuar como quiserem. Quer escrevam com um, quer escrevam com o outro sinal de pontuação, a escolha é vossa. Lembrem-se apenas de optar por um ou pelo outro ao longo de toda a história ou poderão confundir os vossos leitores. Decidem qual opção querem e mantenham-na até misturarem as duas já é errado.

Mas... como é que é possível que haja duas opções? De onde saiu isso?

Reza a lenda que, tradicionalmente, em português, se deve usar o travessão para marcar diálogos. (O travessão é esse sinal "". No final do post eu explico como podem arranjar). Aliás, nem as aspas tradicionais do português são iguais àquelas que estão habituados a ver por aí.
As aspas das línguas latinas, as retas ( « » ). No entanto, com o tempo, isso tem vindo a mudar. No Brasil é muito mais usual usarem-se as aspas curvas ("essas"), nem há teclas próprias para aspas retas duplas como há nos teclados portugueses. Apesar de tudo, em Portugal também se tem passado a usar muito mais as aspas curvas duplas. Parece que elas estão cá para ficar, quer as usemos nos diálogos quer não.

De fato, a história das aspas é curiosa e há vários tipos diferente usados em línguas diferentes. Tudo depende da língau em que você está escrevendo ou até do país de onde vem o texto. Aconselho que verifiquem a página da wikipédia que fala do assunto para mais esclarecimentos e podem até investigar por conta própria se continuarem curiosos.

Mas, se é assim, então quais são as diferenças de usar o travessão ou as aspas? Tem regras diferentes?

Como eu já expliquei anteriormente, nas línguas latinas o usual é usar as aspas retas, mas as aspas usadas nos diálogos por aqui, hoje em dia, são as curas ("essas"). E as regras são ligeiramente diferentes.

Isso acontece porque a forma de pontuar diálogos com aspas curvas também não é nossa. Essa forma de escrever diálogos foi adquirida por influência de outra línguas onde essa é a forma predominante. Hoje em dia é aceito na língua portuguesa e é por isso que as aspas são uma opção válida que podem considerar quando escreverem as suas histórias.

Dá para ressaltar que este texto tem em conta a pontuação em inglês americana, já que é seguindo essa norma que as aspas duplas são usadas, e que o inglês britânico tem regras de pontuação próprias, que explicarei por alto no final do texto

Aconselho-os a escolherem a forma que irão deixá-los mais confortáveis, juntamente com as regras correspondentes.

Mas vamos falar logo dessas regras. Elas são fáceis, vocês vão ver.

Começando com uma questão simples:

Você sabe quando deve usar letra maiúscula ou minúscula?

Esse é um erra que eu vejo muito em fanfics, quer pontuem os textos com aspas quer pontuas com travessão. Apesar disse, e contrariamente ao que pode parecer, a solução é bem simples.

Nos diálogos, as regras mais importante dependem do texto. Isso quer dizer que, dependendo daquilo que escreverem junto com a fala, a letra ou será maiúscula ou será minúscula.

Mas daqui a pouco eu entro em mais detalhes sobre isso. Agora, vamos começar com os exemplos sem grandes coisas.

— Gosto de bolo.

~~

"Gosto de bolo."


Pronto, aí temos uma frase bem simples, pontuada das duas formas usuais. E quem não gosta de bolo?

Nessa frase, duvido que haja dúvidas na pontuação. É só colocar a fala a seguir de um travessão ou dentro de aspas, com letra maiúscula no início e ponto final. Sem problemas aqui.

Mas assim não sabemos quem falou, ou como a fala foi dita, ou em que circunstâncias se desenrolou esse diálogo. Nas nossas histórias, costumamos ter muita coisa a dizer sobre as falas. E como fazem nesses casos? Como fazemos se quisermos transmitir uma ideia com mais pormenores, como "O Pedro disse que gosta de bolo"? Como e onde colocamos esse "disse o Pedro"?

Começando pela forma mais simples e mais usual (depois da fala, na parte final da frase).

Exemplo A:

 Queres um sapato? — perguntou a Joana.

~~

"Queres um sapato?" perguntou a Joana.

Pois bem, sim, pode parecer estranho e o Word pode até sugerir que façam aí uma mudança drástica, mas essas duas frases estão bem pontuadas e bem escritas. Comecei de imediato com grases com pontos de interrogação porque quero que entendam uma coisa importante: na pontuação dos diálogos, o que conta realmente é o verbo que acompanha as falas. Mais nada.

Vamos comparar estas com as seguintes.

Exemplo B:

— Queres um sapato? — A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.

~~

"Queres um sapato?" A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.

Conseguem ver o que hpa de diferente dos exemplos A para os B? Nos A, depois da pergunta, havia letra minúscula. Nos B, depois de escrevermos exatamente a mesma pergunta, surge uma frase com letra maiúscula. Então os exemplos A estão certos e os exemplos B estão errados? Não. Então são os B certos e os A errados? Também não. Ambos os exemplos estão corretos.

Eu disse ainda há pouco que o que diferenciava a pontuação do diálogo era o verdo que acompanhava a fala, certo? Vamos lá olhar outra vez para os verbos.. E não se preocupem, não há nada gramatical aqui.

Nos exemplos A, o verbo ela "perguntar". Nos exemplos B, os verbos são "esticar" e "apontar". Conseguem ver aqui a solução?

Pois, a verdade é que, para se descrever uma fala, nós usamos verbos que exprimem essa ideia de falar. Verbos como "dizer", "peguntar", "berrar", "inquirir", mesmo que seja através de metáforas ("chutar": — Gosta da Mariana? — chutou Pedrinho."). Todos os bverbos que descrevam o ato de falar e que estejam diretamente ligados à fala têm de vir ligados a essa fala. Essa ligação é expressa através da letra minúscula, que indica que a ideia da fala ainda continua na narração, que uma complementa a outra.

E agora reparem nos exemplos B. Os verbos "esticar" e "apontar" referem-se à fala? Não, claro que não. Referem-se a duas ações que a Joana fez, imediatamente após ter falado. Então isso quer dizer que temos duas ideias diferentes e que não há um verbo de fala que una diretamente a linha do diálogo à narração. Dessa forma, temos de usar letra maiúscula.

Deixo aqui mais exemplos, para irem percebendo melhor. E vou apenas usar pontos de exclamação e de interrogação.

Gosta de chocolate? questionou Madalena.

Gostaria de dançar comigo? O olhar de Rodrigo era sincero.

 Você é louco! Afasta-se de mim!  berrou João.

Sou alérgica a chocolate!  Afastou-se Rita do bolo sobre a mesa.

"Gosta de gatos?" inquiriu Pedro.

"Tenho um enorme gato preto chamado Chinelo!" Sorriu Ricardo ao relembrar das patas fofas do seu Chinelito.

"Não gosto nada de ti!" exclamou Barbara.

"Detesto baratas!" Fugiu Marina para a cozinha.

Perceberam tudo até aqui?

Quando o verbo descreve a fala, o verbo vem com letra pequena, unindo a narração ao que foi dito.
Quando o verbo descreve uma ação paralela ou seguida à fala, então passamos a ter duas ideias diferentes e a letra que vem depois do ponto é maiúscula.

Nesta altura devem estar se perguntando por que só optei por usar frases com pontos de interrogação e exclamação. A minha intenção era que entendessem e não se voltasse a esquecer de que, nos diálogos, é o verbo quem manda e o resto só obedece. É uma ideia bem simples e é ela que rege todas as outras regras.

Tendo isso em mente, vamos agora ver o que acontece em frases mais comuns, frases que tenham pontos finais. Aqui as coisas tornam-se diferentes para o travessão e para as aspas, mas vamos avançar por um de cada vez.

Acho que o melhor é dar um exemplo para vocês poderem pensar e analisar a explicação em seguida.

 Não gosto de cães  disse Ricardo.

 Não gosto de gatos.  Afastou-se Ricardo do animal.

 Tenho pena de ti.  O tom da voz de Madalena era de pura compaixão.

Analisemos estes exemplos. Como podem ver, a letra maiúscula ou minúscula ainda está dependente do tipo de verbo. "Dizer" é um verbo de fala, então vem com letra pequena. "Afasta-se" e "ser" são verbos que descrevem ações e não se aplicam diretamente sobre a fala, mesmo que indiretamente falem dela, como acontece no terceiro exemplo. Nesses últimos dois casos, usou-se a letra maiúscula.

Conseguem reparar agora na outra diferenã entre o primeiro caso e os outros dois? No primeiro não há ponto final, mas nos outros há. Percebam porque usei apenas pontos de exclamação e de interrogação nos anteriores, certo? Porque as regras são diferentes para um e para outro tipo de ponto.

Podemos dizer que, em certos casos, os pontos de exclamação e de interrogação não funcionam realmente como pontos. Eles são marcadores visuais que nos dão a entoação da frase, mas não servem para lhe colocar um final. Nos diálogos, é assim que eles funcionam e é esse o seu papel.

Comparando esses pontos com o ponto final, vemos que o ponto final já serve para colocar um final real nas frases sempre que aparece. Quando a frase não termina na fala e continua na narração através de um verbo que expressa o ato de falar, o ponto não aparece. Quando a frase da fala termina e é seguida de uma outra frase que se refere a uma ação completamente diferente, temos o ponto final, para mostrar que as ideias são diferentes.

Entendem agora o que eu quis dizer com o verbo que manda na pontuação? O tipo de verbo define como a pontuação se comporta a cada cado.

Vamos agora a mais exemplos:

 Adoro gatos!  declarou Maria.

 Não gosto muito da sua tia...  disse Matilde.

 Tem quantos cães?  perguntou Mariana.

 Tem olhos bonitos  aformou a avó.

 Detesto pó!  Estava Maria com os olhos vermelhos de alergia.

 Não gosto do meu pai.  A voz de Pedro era fria como gelo.

 O que aconteceu?  Estava Mariana genuinamente preocupada.

Compreenderam tudo direitinho até aqui?

Vamos avançar e ver, afinal, o que distingue a pontuação com aspas da pontuação com travessão. Vou introduzir mais exemplos, que eu acredito que eles tornam tudo mais simples;

"Adoro camaleões" disse Vania.

"Ama teu marido mais do que eu pensava, não é?" perguntou a sogra.

"O golfinho sabe nadar." Matilde bocejou.

Até aqui, é tudo igual, certo? Mas, quando se relaciona uma frase com a narração com um verbo de fala, deixa de ser.

"O golfinho sabe nadar," disse Matilde.

Notaram ali aquela vírgula? Bom, com as aspas é necessário colocar uma vírgula quando a mesma frase tem fala e tem narração, e se passa de um para a outra.

Ficou claro o porquê da vírgula aparecer ali? Mudou de fala para narração, tem de haver alguma coisa que o indique, então surge a vírgula.

Vamos expandir o exemplo e vamos colocar uma vírgula para eu falar de mais alguns pormenores e da posição na vírgula nessas frases. A fala que vai ser dita será O golfinho sabe nadar, mas o morcego não sabe.

"O golfinho sabe nadar," disse Matilde, "mas o morcego não sabe."

Notem que a vírgula vem sempre junto do primeiro elemento e não junto do segundo. Assim, se primeiro vier algo entre aspas, a vírgula vem dentro das aspas, junto a última palavra desse primeiro elemento. Se a vírgula separar narração de fala, e primeiro vier a narração, a vírgula vem fora das aspas, junto à última palavra da narração (vejam a segundo vírgula do exemplo). Assim, a vírgula que pertencia à fala acaba logo de início. É bem simples, não é?

Agora, aproveitando o exemplo, vamos ver como ficaria intercalada uma pequena narração dentro de uma fala maior com travessão. Reparem no que acontece à vírgula:

 O golfinho sabe nadar  disse Matilde , mas o morcego não sabe.

Ao contrário do que acontece com as aspas, nunca se coloca uma vírgula junto do primeiro elemento, ela vem sempre junto do primeiro elemento, ela vem sempre junto do segundo. Isto quer dizer que não podemos ter vírgulas antes de travessões. Se a fala tiver uma, temos de colocar a narração antes dessa vírgula, para que o travessão possa ficar antes dela, e a vírgula virá acompanhada a fala.

Veja os exemplos:

— O golfinho sabe nadar — disse Matilde — mas o morcego não sabe.

— O golfinho sabe nadar — disse Matilde, — mas o morcego não sabe.

— O golfinho sabe nadar —, disse Matilde — mas o morcego não sabe.

— O golfinho sabe nadar, — disse Matilde — mas o morcego não sabe.

Todas estas frases estão mal pontuada. Pensem assim: a vírgula existe na fala, então tem que estar lá, não pode desaparecer (1). A vírgula pertence à fala, então não pode vir junto da narração, isto não faz sentido (2 e 3). E a última regra é a mais simples: a vírgula nunca vem antes de uma travessão (4).

Assim sendo, só a primeira frase dada anteriormente estava correta:

 O golfinho sabe nadar  disse Matilde , mas o morcego não sabe.

E eu agora pergunto: e se vier um verbo de fala dentro de duas frases diferentes?

O golfinho sabe nadar. O morcego, por sua vez, sabe voar.

Quero colocar "disse Matilde" entre as frases.

Vamos pontuar isso corretamente. Ficaria:


 O golfinho sabe nadar  disse Matilde.  O morcego, por sua vez, sabe voar.

"O golfinho sabe nadar," disse Matilde. "O morcego, por sua vez, sabe voar."


Sim, a narração vai restringir-se apenas a uma frase. O verbo "dizer" está ligado à primeira parte da fala. Depois, a frase termina e começa outra, sem verbo na narração. Assim, temos de assimilar a separação das duas frases da fala com o ponto antes da segunda, separando a primeira da segundo. A narração fica "embutida" nas falas se tiver um verbo de fala. É como se a fala se estendesse e perdurasse durante a narração que a descreve. Só aí é que termina e, terminando a narração, termina a fala que lhe esta ligada.

Em outros casos, se tivermos uma ação no meio da fala, fica assim:


"O golfinho sabe nadar." Sorriu Matilde. "O morcego, por sua vez, sabe voar."

 O golfinho sabe nadar.  Sorriu Matilde.  O morcego, por sua vez, sabe voar.


A ação não está ligada à fala por um verbo de fala, então temos três ideias e três frases distintas.

Se tivermos um verbo um verbo de fala MAIS uma ação, unindo as regras anteriores, fica assim:


"O golfinho sabe nadar," disse Matilde, sorrindo. "O morcego, por sua vez, sabe voar."

"O golfinho sabe nadar," disse Matilde. Ela sorriu. "O morcego, por sua vez, sabe voar."

~~

 O golfinho sabe nadar  disse Matilde, sorrindo.  O morcego, por sua vez, sabe voar.

O golfinho sabe nadar  disse Matilde. Ela sorriu.  O morcego, por sua vez, sabe voar.


Vamos terminar agora falando dos casos com frases maiores.

Apesar de ser correto intercalar uma narração com verbos de falano meio de uma linha de diálogo longa sem a quebrarem, não podem intercalar ações no meio de uma linha de fala grande sem a interromperem. Lembrem-se, os verbos de fala completam o diálogo, a fala estende-se para os verbos de fala... mas os verbos de ação interrompem a fala, abordam ideias completamente diferentes e não se ligam entre si.

Frase longa:

"Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos."

Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.

Pode haver narração no meio:

"Eu gosto de caracóis," disse Mariana, "mas detesto porcos."

 Eu gosto de caracóis  disse Mariana , mas detesto porcos.

Ou pode ter a narração no final:

"Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos," disse Mariana.

 Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos  disse Mariana.

A ideia é que, realmente, narração com verbos de fala completam a fala, onde vierem, e ela segue sem problemas, esteja a narração onde estiver, e desde que não quebre nem interrompa nenhuma ideia que componha a frase.

Mas se tiverem uma ação já não têm essa liberdade. Vejam como se inicia uma frase nova no final por causa do verbo em questão:

"Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos." A Mariana coçou o queixo.

 Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.  A Mariana coçou o queixo.

A única maneira de intercalarem uma ação durante uma fala é cortando a fala em várias frases distintas, assim>

"Eu gosto de caracóis..." A Mariana coçou o queixo. "Mas detesto porcos."

 Eu gosto de caracóis... A Mariana coçou o queixo.  Mas detesto porcos.



E pronto, falei que estava terminando. á abordei todas as exceções e todas as situações básicas de pontuação de diálogos.

Foi um post long, mas espero ter ajudado.

Vou deixar, agora, uma lista com exemplo de diálogos um pouco maiores e intercaladoscom mais narração para as duas formas de pontuação. Espero que não tenham mais dúvidas. Estudem os exemplos agora do final e reparem nos verbos e na pontuação usada ao intercalar o diálogo da narrativa.

Boa escrita para você

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Queria um pouco mais do teu incrível café mágico.” Lourenço deu um toque na caneca à sua frente, sorriu para a sua filha. “Por favor, claro.”
Está bem, está bem… Mas só porque o senhor é um bom cliente!” Ela saiu da cozinha a correr e no segundo seguinte berrou do quintal, “Com muita ou com pouca terra?”
Lourenço suspirou e depois respondeu de volta, “Com muita, minha senhora!” Ele só esperava que desta vez não houvesse minhocas.
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— Odeio-te! — exclamou Renata. Ele tentou aproximar-se dela, mas a mulher foi mais rápida. — Não me toques! — Antes que ela sequer pudesse pensar no que fazia, a sua mão subiu e acertou no rosto dele.
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Não acredito nisto!” disse Linda. Olhou à sua volta e ainda lhe custava reconhecer a jarra que fora da sua avó entre os cacos espalhados no chão. As flores jaziam sobre uma poça de água suja. Ela voltou a sua atenção para os seus filhos. “Quem foi que fez isto?” As crianças recusavam-se a olhá-la. “Eu fiz uma pergunta!” exclamou. Eles tremeram, e ela tornou a insistir, “Quem foi o pobre infeliz que fez isto? Juro que se vai arrepender de ter achado que brincar às espadas com a vassoura era uma boa ideia!”
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— De certeza que sabes conduzir isto?
Flávia apertou mais as mãos à volta de Hugo. Ele sorriu, mas estava de costas para ela sobre a mota e ela não o viu.
— Sim, de certeza, boneca. — De travão bem preso, ele acelerou um pouco, só para fazer barulho com o motor. Ouviu o guincho dela com prazer e o seu sorriso aumentou. — Estás com medinho? — perguntou. — Se tens medinho, diz-me. Não precisas de vir agora.
Ela mordeu o lábio e apertou-se mais contra ele.
— Claro que não tenho medo! — disse. A sua voz soou surpreendentemente mais firme do que ela estava à espera, e isso agradou aos dois.
Mas Flávia tinha tanto medo que nem sentia as pernas. Apesar de tudo, ela deu por si a incentivá-lo:
— Estás à espera de quê? És tu quem tem medo agora?
Hugo riu-se alto e no momento a seguir a sua risada deixou de se ouvir sobre o som ensurdecedor da mota a arrancar a toda a velocidade.
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Já não sei o que mais posso fazer, sabes?” disse Inês. Tinha as sobrancelhas franzidas e a boca contraída numa linha fina. “Tudo me parece tão… estranho,” concluiu. “Não confio em ninguém aqui.”
Sim, eu sei o que queres dizer,” respondeu Rodrigo, pegando na cerveja que tinha sobre a mesa. Fez o líquido girar no seu interior e depois bebeu um gole rápido. “É como se o tempo corresse de forma diferente, não é? As prioridades aqui são diferentes. Mas as pessoas têm-nos ajudado,” concedeu.
Ela suspirou e retrucou, “Esta cidade deixa-me confusa.” Formou-se um beicinho amuado no seu rosto. “Quanto tempo ainda vamos ficar aqui?”
Isso depende.” Rodrigo coçou a sobrancelha direita e pareceu pensativo por um momento. Depois olhou para ela. Não disse nada e tornou a coçar a sobrancelha, com o olhar perdido na parede atrás de Inês. “Isso depende e não é só de nós os dois…”
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— Gostas de mim? — perguntou ela. O seu sorriso era confiante. Ela sabia que a resposta seria positiva. Ela só queria torturá-lo por mais um momento.
Ele indicou que sim com um meneio de cabeça.
— Diz-me — insistiu —, gostas realmente de mim?

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Extras:

1. COMO COLOCAR TRAVESSÕES
Se o vosso teclado tiver o number pad (o “num lock”) do lado direito, é muito simples. Mantenham o dedo sobre a tecla ALT e primam os números 0151. Esse é o código ASCI para o travessão aparecer.
Se tiverem um notebook/computador portátil e ele não tiver o number pad, podem colocar o travessão ao acederem à aba INSERIR do Microsoft Word, acederem a SÍMBOLO e o encontrarem na lista que aparece.
Uma sugestão muito boa é criarem um atalho próprio no programa que usam para escrever para poderem ter o travessão facilmente. O meu atalho é ALT + A. Sempre que eu primo essas teclas, eu coloco um travessão no Word. No Word podem ir a SÍMBOLOS e depois escolher TECLA DE ATALHO para definirem qualquer atalho à escolha para qualquer símbolo que queiram.
Se não tiverem um processador de texto que permita essas edições ou essas inserções de símbolo, podem fazer o que eu faço quando uso o Google docs. Procuro literalmente “travessão Wikipédia” no Google e acedo à página da Wikipédia sobre o travessão. Aí só tenho de copiar o símbolo diretamente da página e colá-lo sempre que precisar de colocar um no texto. Em vez de fazer ALT+A, faço CTRL+V.


...

2. UMA ÚLTIMA DICA SOBRE DIÁLOGOS — O VOCATIVO
Esta dica é um extra. Acrescento-o aqui porque é outro erro grave que incontáveis diálogos nos sites de fanfics têm e que é realmente simples, se quiserem tentar descobrir qual é esse erro.
O vocativo é o que se chama ao “nome” da pessoa com quem estamos a falar.
Se eu me viro para um grupo de pessoas e falo “Gente, socorro!”, esse “gente” é o que eu estou a chamar a esse grupo de pessoas. “Gente” é o vocativo.
Se eu digo “Professor, tenho uma dúvida!”, “professor” é o que eu estou a chamar à pessoa com quem falei. “Professor” é o vocativo da frase.
Se eu digo “Meu amor, podes passar-me o sal?”, “meu amor” é a forma que eu tenho de chamar a pessoa com quem estou a falar, então é o vocativo.
Caso tenham reparado, tudo aquilo que eu identifiquei como vocativo veio entre vírgulas nas frases. É uma regra gramatical muito importante e simples, que basta que interiorizem para não errarem. O vocativo tem sempre de vir entre vírgulas. Ele vem só com uma se estiver encostado ao início ou ao final da frase, mas tem de vir sempre isolado do resto.
Deixo aqui outro mini exemplo de diálogos, mas com alguns vocativos em todas as falas para servir de exemplo:

— Sabes, Pedro, eu detesto o frio…
— Sei sim, Maria, estás sempre a falar disso…
— Estou? Deixa de ser chato, deixa-me em paz, seu… seu chato!
— Eu sou chato? Tu é que és irritante, sua irritante!
— Não sejas mau, irmão, não me quero chatear contigo.
— Nem eu contigo, maninha. Tens razão.
— Vamos fazer as pazes, cabeça de mula?
     — Vamos, ancas de cegonha, vamos…




Agora eu encerro oficialmente este post.
Até o próximo.
Beijos da Ana.