terça-feira, 30 de junho de 2015

Histórias como quebra-cabeças

Suspense e mais suspense...



Que tem gosto para tudo, disso sabemos. Mas quem é que não gosta daquelas histórias (fanfics) em que você se pergunta "o que vai acontecer depois disso?"

Acompanhar uma boa história nos dá aquela sensação deliciosa, além, é claro, dá expectativa por mais. Mas o que é que consegue esse efeito de "prender" o leitor? Bem, podemos dizer que há vários elementos, como a espera pelo romance, os personagens cativantes e os vilões marcantes.
Não há um só elemento, mas sim um conjunto de fatores que atraem o leitor. E, um deles, sem dúvida, é o famoso "perguntas sem respostas".

Investir em falsos "furos" no enredo pode causar um bom efeito na trama. Os roteiristas de novelas apostam muito nesse modelo.
No início é jogada uma enxurrada de informações em cima do espectador: personalidade distorcida, segredos complicados, sentimentos guardados no fundo do coração. O segredo é instigar e surpreender. Mas como fazer isso?

Para começar, é necessário entender que os furos no enredo devem ser propositais. O melhor seria criar um plot onde seria colocado que, em tal capítulo, o assunto foi instigado, em tal capítulo foi citado, em outro foi desenvolvido e em outro resolvido.
Plots são muito bons quando a intensão do autor é deixar coisas subentendidas. É uma ótima ferramenta. Mas tem autores que funcionam muito melhor sem plot. O importante é que o autor tenha total consciência dos pontos em aberto na historia. Utilizar plot não é obrigatório, é por uma questão de organização de ideias.

Organizar as ideias, achei a expressão correta. Para conseguir desenvolver um suspense, e não estou dizendo uma história desse gênero, e sim uma situação onde algo fica pendente, é necessário organizar perfeitamente cada detalhe.
Se uma porta se abre, ou um novo personagem aparece, é tudo planejado. Ele pode ser o assassino da mocinha ou pode ser o espião do vilão. Cada detalhe é colocado para levar à resolução do mistério. Deixar coisas no ar ou simplesmente mal resolvidas vai levar os seus leitores a continuarem lendo a história.

Podemos dizer, então, que é quase um truque psicológico. O ser humano é curioso por natureza. Às vezes lemos um livro ou assistimos a um filme simplesmente porque algo no início nos deixou instigado.
Uma pequena informação, uma personagem que teve pouca participação, não importa o que for, o segredo para criar uma história geniosa e que prenda o leitor é saber exatamente quando, onde, como e por que algo foi feito ou deixou de ser.

Ou seja, usem e abusem do suspense, do mistério e da ferramenta de informações subentendidas. Escrevam a cena uma, duas, três vezes se necessário. Consultem amigos, perguntem o que eles acham, pesquisem sobre o assunto na internet ou em livros. Quanto mais conhecimento e experiência, mais fácil será criar um enredo criativo e que prenda a atenção do leitor nos pontos chaves.

Acho que é tudo.
Até o próximo post.
Beijos da Ana.

domingo, 7 de junho de 2015

A jornada do herói

I'm Batman


Já chegou em um momento do tipo "OMG! Como vou continuar minha história?!" Bem, então este post é para você.
Uma grande maioria de escritores começa por ter uma ideia linda, brilhante e, as vezes, fenomenal, para se por em uma história. Começa a escrever e tudo são chocolates e marshmalows. As vezes se mantem deste modo por longos capítulos, outras é uma coisa que só dura nos primeiros. E depois? Depois chega a escuridão do local mais profundo do Tártaro e a história fica ali enquanto o autor desesperá-se porque não tem inspiração para continuar a maldita.

Isso acontece porque a história foi iniciada sem ter uma estrutura. Na maioria dos casos, pelos menos. Mas enquanto para alguns ter uma estrutura em mente é tanto lhes faz como tanto lhes fez, para muitos é essencial para saber como conduzir a história até o final. E, convenhamos, quer se goste ou não, todas histórias acabam por ter uma estrutura.

Mas o que é uma estrutura?

Perguntam-me vocês e perguntam muito bem. Expondo de uma forma simples, uma estrutura é a ordem pela qual um autor coloca seus eventos. Os eventos em si serão o enredo. Sempre tenham esta distinção em mente quando estiverem estruturando o seu enredo.

Mas se eu estruturar vai ficar igual a todas as outras histórias e eu não quero isso, quero algo original!

Esta tem sido uma justificativa muito apresentada por quem não deseja estruturar sua história. Infelizmente é uma justificativa que demonstra o preconceito com a coitada da estrutura.
A estrutura é um esqueleto. Eu tenho um esqueleto. Vocês tem um esqueleto. Todos tem um esqueleto. Significa que somos todos iguais? Não. Com a estrutura e a história funciona da mesma maneira.
E mais: a estrutura está além do plágio. Que quer dizer com isto? Quero dizer que enquanto "OMG! Que personagem/evento/fala/descrição magnífica, preciso mesmo usá-la na minha história" é plágio e não se deve fazer, "OMG! Que estrutura magnífica, preciso mesmo usá-la na minha história" não é plágio e pode-se perfeitamente fazer. Não acreditam? Pois eis algumas histórias que partilham a mesma estrutura: Harry Potter, Senhor dos Anéis, Percy Jackson e Star Wars. Não são as mesmas histórias. Não são plágio umas das outras.

Tudo isto esclarecido, avancemos para a próxima questão.

Como é que eu estruturo a minha história?

Não existe uma só estrutura ou método de estruturação, contudo, ao longo dos anos vários críticos e estudiosos foram investigando e acumulando alguns esquemas de estruturação à história da Literatura. Isto, naturalmente, é um trabalho que ainda está sendo feito e, como qualquer coisa acadêmica, não há consenso. O que acaba por ser bom, permite ao autor que aplique a estrutura que melhor lhe convém.

A estrutura da qual iremos falar neste post é uma das mais amadas pelo público. É a estrutura de Harry Potter, Senhor dos Anéis, Percy Jackson e Star Wars, entre outros. É a jornada do herói, uma teoria desenvolvida por Joseph Campbell e publicada em 1949 sob o título "O Herói das Mil e Uma Faces". No seu ensaio, Campbell utiliza como exemplos contos mitológicos de uma grande variedade de culturas, demonstrando a ancestralidade da estrutura e quão instintiva esta ao ser humano.
Eu, por enquanto, vou procurar utilizar exemplo mais recentes e aproveitar para sumarias a teoria de Campbell, porque deu-lhe para escrever umas 400 páginas e isso seria extrapolar em muito o limite de bom senso de um blog.

A jornada do herói divide-se em três partes, cada uma com as suas próprias divisões. Partida, Iniciação e Regresso. As subdivisões que aqui se encontram não estão, necessariamente, em todas as histórias que utilizam esta estrutura, nem sempre com a ordem aqui estipulada, mas, pelo menos, uma delas somos capazes de distinguir.
Olhemos mais a fundo.

Na Partida podemos encontrar cinco subdivisões principais:

1) O Chamamento da Aventura
O destino tira o herói do mundo que ele conhece, da sua bolha de conforto, e leva-o para o desconhecido. Este "destino" pode sr um ataque inimigo que lhe destrói a casa e assassina os tios, como acontece com Luke Skywalker em Star Wars, ou pode ser um feiticeiro de longas barbas que nos enfia um bando de anões pela casa adentro, como acontece com Bilbo Baggins em O Hobbit. ou seja, pessoa, acontecimento ou ambiente, tudo se encaixa.

2) Recusa do Chamamento
Como já devem ter adivinhado pelo nome, o herói recusa partir numa aventura. Esta recusa pode ser permanente ou reversível, sendo esta última a mais comum. Lembram-se de como o Bilbo esta reticente em deixar o Shire?

3) O Ultrapassar do Primeiro Limiar/Desafio
O herói ainda não começou a aventura propriamente dita, quanto já tem de dar a volta aos guardas que verificam o caminho para o desconhecido. Uma boa analogia é a Esfinge, aquela que apenas permite a entrada na cidade aos viajante que consigam responder acertadamente ao seu enigma. Mais um bom Exemplo? Um bom exemplo seria quando Frodo Baggins deixa o Shire tendo de escapar aos Nazgûl. Na sua primeira aparição, eles são os "guardas" que o querem impedir de partir na sua aventura.

4) O Estômago da Baleia
O estômago do que? Vamos falar sobre Jonas? Quase. Esta fase é uma metáfora para o "desaparecimento" do herói do mundo que ele conhecia. O desconhecido, de certa forma, engole o herói. Harry Potter, por exemplo, "desaparece" do mundo dos Trouxas para ser absorvido pelo mundo dos Bruxos. Bilbo e Frodo "desaparecem" no Shire para serem engolidos pelas aventura no resto da Terra Média. Percy Jackson "desaparece" no mundo normal para ser engolido pela Acampamento Meio-Sangue. Já pegaram a ideia, suponho.

5) Ajuda Supernatural
Sendo a mais flexível, podemos encontrá-la entre várias das restantes subdivisões, em simultâneo que qualquer uma delas, e mais do que uma vez - ou nunca a encontrar. Explicando com simplicidade, o herói é auxiliado por outrem, usualmente um guia, e usualmente com algum tipo de poder. Já há nomes a pipocarem nessas cabeças? Exatamente, Dumbledore em Harry Potter, Gandalf em Senhor dos Anéis, Brom em Eragon, etc, etc, etc.

Na Iniciação, aquele momento comumente visto como o meio da aventura pelo leitor ou espectador, temos seus subdivisões a merecer uma palavrinha.

1) A Estrada dos Desafios
É uma altura em que o herói deve pôr de lado o seu orgulho, beleza, virtude e/ou vida, e curvar-se ou submeter-se ao absolutamente intolerável. Assim que o fizer, descobre que ele e o inimigo não são de espécies diferentes, mas uma só carne. Psique e as suas quatro tarefas para recuperar o perdão e a confiança de Eros é um exemplo desta subdivisão. Em "Harry Potter e a Pedra Filosofal" temos também esta "Estrada" em evidência quando, ni final, Harry percorre as salas e desafios necessários para chegar à Padra Filosofal, e encontra Voldemort estampado na nuca do Professor Quirrel.

2) O Encontro com a Deusa
E aqui temos mais uma metáfora. Elas são recorrentes pelas teorias literárias. Isto espelha o papel que a mulher tem na mitologia: ela representa a totalidade do que pode ser sabido, sendo que o herói é aquele que aparece para saber. Este encontro pode ser positivo ou negativo, conforme as implicações que terá o herói, e pode ser levado a cabo por mais do que uma personagem, não tendo de ser obrigatoriamente uma mulher toda-poderosa. Um bom exemplo desta subdivisão é a personagem Angela em "Eragon" ou Galadriel em "Senhor dos Anéis".

3) A Mulher como a Tentação
Ah! Uma tentação que coloca as peças em movimento. Mias uma vez representada por uma mulher, embora não seja obrigatório, e um pouco autoexplicativo. Fugindo da ficção especulativa, que tem fornecido todos os exemplos até o momento "materializações" desta subdivisão podem ser encontrar em Lady Macbeth da peça de shakesperiana "Macbeth" e a própria Eva do Génesis.

4) Reconciliação com o Pai
Primeiro é preciso compreender que este "pai" não é literal, mas sim uma representação dos medos do heróis, ou uma figura que representa aquilo que o herói se quer tornar. Deste modo, caso estejamos perante o primeiro caso, o heróis consegue abandonar o duplo monstro auto-gerado, vencer os seus monstros psicológicos, por assim dizer, enquanto no segundo caso o herói, de certa forma, consegue ultrapassar ou igualar ao seu mentor.

5) Apoteose
Ou divinização. O herói apercebe-se das suas capacidades e consegue alcançar o seu potencial máximo.

6) A Derradeira Graça
O herói consegue aquilo que deseja, para seu bem ou para seu mal. Harry tem uma bela de uma pedra filosofal no seu bolso no fim de "Harry Potter e a Pedra Filosofal", Percy Jackson limpou o seu nome e recuperou o raio em "O Ladrão de Raios", Frodo destrói o Anel, Luke Skywalker vendo o Império, O Rei Minas consegue o toque de ouro...
Tudo se encaminha para o final. "Mas eu preciso ter tudo isso na minha história? É que é tanta coisa, e eu realmente não preciso da subdivisão X para isto ou para aquilo." A resposta é: não. Cada autor utiliza as subdivisões de que necessita. Em literatura, até com o esqueleto se pode brincar.

Ah! Ótimo, então vou agora começar a escre...

Calma, que ainda falta o Regresso! Não podemos deixar o herói abandonado por aí, depois de ele ter passado por todos aqueles problemas para nos entreter, não é? Não seria educado, então, apenas natural que o herói leva o seu prêmio (conhecimento, valores, pessoas, liberdade, etc.) de volta ao mundo comum. Também aqui temos seis subdivisões principais, sendo mais evidente a sua não-obrigatoriedade, pois enquanto umas
 podem ser usadas em simultâneo, outras dariam uma salgalhada de todo o tamanho, caso se tentasse misturar - se é que não se contrariam de todo.

1) Recusa em Regressar
Meio óbvio o que o herói faz aqui. Esta recusa pode ser temporal ou definida. Ou pode ser algo como "João Sem Medo", em que o herói se duplica, e enquanto um João vai viver a sua vida comum, o outro João continua as aventuras, sendo que trocam de lugar de X em X anos.

2) O Voo Mágico
Apesar de eu ter imediatamente uma imagem do Alladin no Tapete Voador cada vez que leio isto, o que verdadeiramente isto quer dizer é: o regresso é feito com o auxílio de favores sobrenaturais. Até pode ser um tapete voador, mas o exemplo mais conhecido - de tanta piada que já gerou - são as Águias que levam Frodo e Sam do Vesúvio, perdão, de Mordor para Rivendell, em "O Senhor dos Anéis".
Não, não tem de ser necessariamente feito através de uma entidade voadora.

3) O Resgate
O herói é resgatado, ou obrigado a regressar. Por exemplo, em "Harry Potter e as Relíquias da Morte", quando Harry "morre" por uns segundos/minutos, conversa com Dumbledore na Plataforma 9¾, e depois regressa ao mundo dos vivos.

4) O Ultrapassar do Limiar/Desafio do Regresso
O herói não é a mesma pessoa que era quando partiu. A sua aventura alterou a sua maneira de ser, de pensar e de encarar o mundo. Agora o herói tem de sobreviver ao impacto do mundo. Mais uma vez, a saga "Harry Potter" apresenta excelentes exemplos no final de cada um dos livros.

5) Mestre dos Dois Mundos
O herói adquire a capacidade de viajar entre ambos os mundos. Percy Jackson, por exemplo, pertence tanto ao "nosso" mundo comum, como pertence ao mundo mitológico representado no Acampamento Meio-Sangue.

6) Liberdade para Viver
No final da saga "Harry Potter", o mundo mágico respira de alívio pela liberdade que adquiriu após o desaparecimento definitivo de Voldemort. Em "Jogos Vorazes", mais nenhuma criança terá de matar outra para sobreviver a um jogo. Em "A Bela Adormecida" todas as pessoas que se encontram adormecidas  no castelo acordam junto com o quebrar do encantamento. Em todos estes exemplos, é permitido a uma generalidade que prossiga com as suas vidas comuns.


E isto, meus amores, é "A Jornada do Herói" de Campbell, resumida. Como já falei antes, e como ficou evidente pelos exemplos, trata-se de uma das estruturas que mais tem aceitação e que  desperta empolgação.
Que esta estrutura tenha lhes ajudado nas suas histórias e que impeça de que fiquem sem saber como continuar as mesmas.
Até o próximo post.
Beijos da Ana.